REGIÃO DO CONTESTADO -- BARRA DE SÃO FRANCISCO ES e MANTENA –MG
Cel PMES - DJALMA BORGES
História contada pelo Capixaba.
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Continua sendo ainda essa até hoje a controvérsia existente em torno da legendária figura do Capitão Djalma Borges que, durante vários anos, como um verdadeiro vice-rei, imperou no Norte do Espírito Santo.
Mesmo passados mais de 60 anos, suas façanhas ainda continuam trazendo as principais histórias da região, que prosseguem sendo passadas de pai para filho, eu mesmo já ouvi muitas histórias em Barra de São Francisco, no distrito de Paulista, por exemplo, anda bem acesa nas memórias a forma que encontrou para se livrar dos incômodos cadáveres da febre amarela, tirou os participantes de um baile para fazer as covas e enterrar os defuntos, sem que a dança acabasse.
De outra feita, obrigou um marido traído a surrar a esposa, embora não fosse essa sua vontade, tanto que na hora que chicoteava a mulher repetia constantemente à amada: "Não sou eu não, meu amor, é o capitão Djalma que está batendo em você".
Histórias à parte, a principal atividade do capitão Djalma Borges foi, na verdade, o combate ao banditismo, à construção de estradas e a fundação de vilas e mais tarde cidades, em empreitadas que contavam com o trabalho forçado das populações, onde cada um era obrigado a emprestar semanalmente a critério do capitão, um dia de serviço. Foi graças a esse voluntarismo forçado que surgiram cidades importantes como Barra de São Francisco e rodovias como Colatina - Mantena.
Dizem que apedido do Capitão, o governador mandou um avião cheio de caranguejos e soltou na trincheira perto dos Policiais Mineiros. E que não ficou um soldado mineiro; Correram todos. (Como mineiro tem medo de caranguejo!). srsrs.
Tudo isso ele fazia - como senhor absoluto na região, onde produzia as leis e usava a toga de juiz, dominando assim o bem e o mal. Presos na sua zona pagavam a carceragem gritando pelas ruas: “Viva o Espírito Santo, viva o capitão Djalma, ele nega a autoria de centenas de mortes que lhe são atribuídas: “Não senhor”! Mataram, não escondo, mas sem a minha ordem.
Sua história, então:
Eu fui para o Norte do Espírito Santo em novembro de 1939. Até para cima de São Domingos nós fomos de caminhão. Dali montamos a cavalo e viajamos 14 léguas para São Francisco. Lá só encontrei 14 barracas e só havia uma boa casa, que pertencia ao Espanhol. O Governador Bley me encarregou de tomar conta de toda a região, já que em nosso território existiam até destacamentos policiais de Minas Gerais.
Eu fui a Mantenópolis (nome atual) e fundei Mantena, por causa do córrego do mesmo nome. Depois Floriano Rubin com sua política mudou o nome para Mantenópolis. Minas aproveitou o nome Mantena para outro lugar. Para uma região que os capixabas chamavam de Gabriel Emílio e os mineiros de Benedito Quintino. Ficamos na fazenda do Gregório Afonso, pois estava chovendo muito desci de lá e fundei o povoado. Tomei até uma parte da fazenda de um mineiro, tal de Apolinário, para instalar a sede do distrito. Ele ficou zangado, vendeu o resto da fazenda e foi embora.
Depois chegou por lá o serviço Geográfico do Exército e o IBGE para fazer o recenseamento. Peguei logo três funcionários do Estado vendendo terra ilegal a terceiros, quando na verdade, o Governo estava interessado a doá-los para povoar a região, ameaçada de ocupação por Minas Gerais por falta de gente do nosso lado. Prendi e mandei-os de volta. O Governador Bley demitiu um suspendeu o outro por 24 meses e tirou o emprego do terceiro. Eram de importantes famílias. Não vou dizer o nome porque a família deles está por aí.
De saída, levei apenas três soldados. Mas nenhum deles prestava, além de haver percebido que a tarefa que me deram era por demais árdua. Um era um tal de Dinis, outro Jorge Come Cru, um assassino muito grande, mandei embora o Agenor, que era o melhorzinho, mas também não prestava. Vim a Vitória e substituí-os. Levei homens de minha absoluta confiança. Na volta comecei as minhas realizações pedindo um dia de serviço da população. Eles queriam no Domingo para aproveitar o Sábado para as compras, alegando que naquele dia havia muitas brigas pelas vendas da mata. Eu combinei o Sábado e disse que no Domingo colocaria policiamento para garantir as compras.
A princípio, meu pessoal era composto de 15 soldados, mas logo aumentavam para um pelotão, 40 homens. Eu mesmo assumia tudo, inclusive o lugar do tenente. Já era capitão. O Governador Bley me deu um pelotão de sapadores. Sapadores são homens que trabalham nas estradas, mas era só para Minas Gerais não protestar. Eu levei homens bravos e armados. Comecei a fazer a estrada de São Domingos (onde ficou a de Cyro Medeiros) até Gabriel Emílio. Eram 95 quilômetros de estradas, feitos em apenas 27 sábados, com o trabalho espontâneo de 400 agricultores da região, porque nunca obriguei ninguém a trabalhar nela, embora costumassem dizer na região "que um convite do capitão era uma ordem”.
Para o seu tamanho, o Norte do Espírito Santo era uma região desabitada. Para lá iam muitos foragidos da justiça. Prendi muito inclusive um subdelegado de polícia de Minas Gerais que era criminoso em Afonso Cláudio. Prendi outro que matou um fazendeiro em São Manoel do Mutum. Na época, havia até uma oferta de 50 contos de réis para quem o prendesse. Eu não recebi nada. Assim, prendi muita gente que a Justiça queria botar as mãos.
O Governador Bley foi inaugurar a estrada, um ministro do Getúlio, secretários de Estado, gente do Tribunal de Justiça. A inauguração dessa estrada consagrava um feito tão grande, fora a sua importância para a ocupação do território capixaba, que a revista Vida Doméstica, principal revista da época, publicou duas páginas. Eu organizei uma festa imensa. O Governador Bley quando viu a estrada ficou tonto. A Testemunha disso é o Cícero Moraes. Na hora me chamou de bobo. E disse: "O Djalma está fazendo aquilo tudo para o Estado sem nenhuma despesa, como é que ele está se arranjando sem dinheiro?". Eu também não pagava nada a ninguém. Era um segredo da estrada.
Depois dessa estrada, os terrenos valorizaram demais. Uma propriedade de 10 alqueires não se encontrava mais por cinco contos de réis. O trânsito ficou muito grande. Voltei a minha atividade para transformar o vilarejo de Barra de São Francisco numa cidade. Fiz logo a instalação da farmácia e dei de presente a Ayrton Vilaschi. Ele entrou só com o medicamento. E mais tarde vieram outros farmacêuticos, Joaquim Alves de Lima e Euclides Fernandes. A principal Rua de São Francisco era um morrinho. Aí, eu sei até o número exato de homens que fizeram a avenida, 354. Eu abri aquela rua larga rapidamente. Dei o nome de Avenida Espírito Santo (atual Jones S Neves) loteei toda, mas exigi que as frentes das casas fossem feitas direitinhas, caladas, etc. com o fundo, não me importava. E tudo obedecendo a um alinhamento que tracei.
Para comemorar levei o bispo d. Luiz Scorteganha. Em oito dias que ele passou lá, fez mais de 15 mil crismas, fez uma coisa imensa de casamentos e batizados. Eu fiquei com 265 compadres. Eu também fiz as ruas todas da cidade e endireitei os dois rios a fim de evitar suas habituais enchentes. Mais uma vez com trabalho dos outros. Fiz uma escola com três salas. O Estado nunca entrou com o material, porque até o tijolo e a cal eu conseguia com os outros.
Eu acabei com os bandidos. Usei-os muito para fazer as mais difíceis estradas. Faziam eles puxam pedra e barro, em couro de anta, que era mais resistente que couro de boi. Eram quatro a cinco homens seguros no foucinho do animal puxando a carga. Anta era à vontade, era só entrar no mato pelos córregos e tocar fogo nelas.
Bichos? Matavam-se veados na Rua de São Francisco. Animal era à vontade. Eu mandei um casal de onça para o Governador Bley que presenteou a um zoológico. Uma vez eu fiquei com carro enguiçado na estrada que vinha de Colatina e uma onça pulou na frente. Eu levei o serviço nacional de malária. Houve uma epidemia. Havia 1.912 pessoas atacadas de impaludismo, segundo um levantamento que fiz com os meus soldados. Vim aqui e o Dr. Jaime me deu vacina e até enfermeiro. Por lá andou um médico parente de Getúlio Vargas, levou pouco tempo. Seu café da manhã era meia garrafa de cachaça. Matou um cunhado numa briga de herança. Fugiu e deu lá que era lugar de fugitivo. Como médico, era fantástico. Casou com uma mocoronga, que servia mesmo para puxar o seu cavalo, pois ele era uma pessoa gordíssima, mais de 100 quilos. Na vez que saiu sozinho, caiu do cavalo e morreu.
Fiz outra estrada para Paulista, até a margem do rio. Fundei inúmero povoado. Fundei Ecoporanga com o nome de 15 de novembro, no dia 15 de novembro de 1940. Fundei Santa Terezinha, porque tinha uma filha com esse nome. Foi no dia 29 de janeiro, de 1941. Fundei Mantenópolis, com o nome de Mantena, em junho de 40. Fundei Vargem Grande, que mudou com o acordo de limites de Chiquinho com Minas, ficou para eles. Não podia ser de Minas. Fundei Ariranha, Santa Angélica, porque era no dia da Santa Angélica. Fundei Cotaxé, na Pedra da Viúva. E um povoado que foi fundado em 1951 e se desenvolveu assombrosamente Montanha. Foi quando eu estava em Mucurici, que era conhecida por Comercinho e para vir a cavalo para apanhar a estrada tinha que passar por Taquara. Um dia eu cheguei cansado e disse: vamos dividir essa viagem. Marquei o lugar. Chegou um engenheiro baiano Otávio Brandão e resolveu me ajudar. Ele planejou a cidade e fez uma planta da cidade que serve até hoje.
Quem mais me dava trabalho era a polícia mineira. Porque ela contratava bandidos e mandava para a zona contestada. Eu os prendia e mandava de volta. Nunca dei confiança a Fernandinho (figura lendária que comandou Minas Gerais no litígio com o Espírito Santo na zona contestada). Um dia ele começou a fazer uma propaganda má contra mim no seu serviço de alto-falante em Mantena. Falavam muito mal de mim. A notícia chegou logo. E eu fui lá. Mas não o encontrei em casa. Talvez ele tenha dado no pé e conversei com a esposa dele.
Pedi para entregar um bilhete ao marido, no qual comunicava que eu estava na cabeça da ponte de Mantena esperando ele. Convidava para um duelo nesse lugar. Além do desafio, dizia no bilhete que ele era ladrão, bandido e salafrário. Mas ele não compareceu. Eu fiquei na ponte a noite inteira aguardando o Fernandinho. Depois ele mandou me dizer que não havia ido ao duelo porque não sabia atirar. Quando ele foi eleito deputado, fiz um artigo na A Tribuna: "De ladrão a deputado". O padre Zacarias foi o intermediário disso tudo.
Fernandinho era um homem que contava com a cobertura do governo mineiro e tomava até colheita de café de pobres agricultores. Mas no dia em que ele tomou a de um capixaba eu fui lá dentro de Mantena, de novo, pegar os 50 sacos de café do capixaba de volta. Eu nunca mandei matar e não matei ninguém. Mas meus homens mataram mesmo. Mas quando isso acontecia e eu ia apurar as razões. Tinha na mesma equipe, o sargento Pimenta, o João Alves Adrovando e Jacy Moraes. Eu fui uma vez tocaiado. Tenho ainda o chumbo em minhas mãos. Tinha talabarte naquele tempo e eu viajava descansando a mão nele. Dessa vez ia somente à companhia de um elemento do cabo Custódio. De repente escutei o estalo de uma espingarda, o tiro me arrancou do animal. O cabo correu e com ele o meu cavalo. Um sujeito saiu da tocaia com a espingarda na mão enquanto eu estava no chão aturdido ainda com o balaço. Ele chegou pertinho de mim e disse: "Morreu miserável. "Fiquei fingindo de morto. Quando ele saiu eu puxei meu revólver e dei um tiro no pescoço dele. Ele caiu, eu fui lá e amarrei o seu ferimento com um lenço. Nisso voltou o cabo na companhia de outra pessoa. Fomos socorrê-lo no povoado.
.O padre Zacarias andou encrencado comigo, por causa de suas ligações com Minas Gerais.
Eu fiquei por lá de 1939 a 42, a primeira vez e depois voltei em 1957. Quando cheguei a cada lugar que Minas Gerais botavam um destacamento eu colocava um nosso. Aí, costumavam me procurar os oficiais mineiros. “Capitão o senhor colocou um destacamento lá”. Você manda tirar o seu que eu tiro o meu, respondia. Quando cheguei tinha 18 postos da polícia mineira. Quando eu saí só tinha um e eu mantive os nossos destacamentos em todos. Eu fundava um povoado e tocava um destacamento. Depois da minha saída, o Governador Bley nomeou o Major do Exército Manoel Vilar prefeito da região e ele acabaram deixando Minas ocupar posições que eu já havia conquistado para o Espírito Santo. Em 1957, eu voltei para participar da briga do contestado. Para minha surpresa encontrei tudo desorganizado. Novamente tive que organizar tudo.
No meu tempo, o único bandido que não foi expulso da região foi Tintino Rosa. Ele era um bandido bom. Tinha duas fazendas na zona de Nova Venécia e outra em Águia Branca. Ele uma vez trocou tiro com o Jacy Moraes, que era um dos melhores militares da minha equipe. Ele vivia as turras com Eleosípio Cunha, filho do Barão de Aimorés.
Os outros ficavam mais quietos do que ele. Quando saíam da linha enfrentavam o velho castigo, trabalhar na estrada. "Fulano você fez isso e vai passar 10 dias limpando estrada". E o cara ia sem pestanejar. Tintino tinha uma briga feia com o pai desse presidente da Assembléia Legislativa, era o Miranda. Eu fui até lá para fazer as pazes, mas o Miranda não quis. Ele também era um homem decidido.
Tintino de fato tinha muitos inimigos. Não era homem de transigir. Além do mais era negociante de concorrência. Era a modalidade pela qual você comprava a colheita da pessoa em troca de fornecimento de gêneros o ano todo. Ocorria que na hora de entregar a colheita, geralmente de café, aparecia outro para cobrir o preço. Então a briga era com o dono do café ou então entre os próprios comerciantes. Tintino era danado de entrar por aí. Fazia confusões imensas. Ele, de fato, não era flor que se cheirava. Em São Mateus, ele uma vez, levou uma boa lição do Ten. Jadir Rezende, o Ten. e mais dois soldados prenderam Titino e levaram preso para São Mateus. entretanto o Governador da época mandou soltar. .Titino Rosa era afilhado de um Ex Governador, que sempre o livrava de encrencas com a Policia.
Morreu tomando uma cerveja em Aimorés. Um ex Soldado capixaba que ele andou batendo deu três tiros nele.
Fonte: S. Diário. Cel RR Jadir Rezende e Levi Lima.
Edivaldo Machado Lima (filho da região)
Texto e fotos: Internet



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