Como pastores e administrador diocesano destas Igrejas Particulares do Estado do Espírito Santo, provocados pela Palavra de Deus e confrontados pelo cenário social, político, econômico e ecológico, dirigimo-nos às (os) fiéis da Província Eclesiástica do Espírito Santo com algumas reflexões que julgamos importantes para o discernimento do voto consciente, fruto do nosso compromisso batismal.
1 – A verdade e o bem comum – O debate eleitoral deve ser feito a partir de propostas concretas que visem o bem estar de toda a população, e não apenas de um grupo específico. Não cabe em uma disputa eleitoral cidadã a mentira, o ódio e a intolerância. Nós, cristãos, temos compromisso com a verdade e com o cuidado do outro. Devemos rejeitar as notícias mentirosas, os discursos de ódio e as práticas de racismo, intolerância e criminalização da pobreza. Não é possível que católicos votem em candidatos que alimentam e fortalecem políticas do ódio, difundem notícias falsas e que sobrevivem às custas da violência que os mais pobres enfrentam todos os dias.
2 – A liberdade e a democracia – A democracia foi conquistada no Brasil com o sangue de muitos irmãos e irmãs nossos, tendo sido a Igreja uma de suas protagonistas. Não podemos abrir mão de nossa liberdade de pensar, de falar e de votar. Da mesma forma que não podemos abrir mão da participação nos mandatos executivos e legislativos por meio de canais e instrumentos, já previstos em lei e outros, que precisam ser apresentados pelos candidatos. Qualquer proposta política que ameace a democracia deve ser rejeitada pelos cristãos católicos e os candidatos comprometidos com a democracia devem apresentar propostas concretas que viabilizem a escuta e a participação popular ao longo de seus mandatos.
3 – Solidariedade e enfrentamento à fome – A pandemia de covid-19 acirrou o cenário que já se apresentava das desigualdades sociais no país. A renda dos ricos aumentou e a dos pobres diminuiu, com a desvalorização do salário mínimo e a diminuição do poder aquisitivo dos trabalhadores e trabalhadoras. No momento em que o país bate recordes de produção de grãos, a cesta básica fica mais cara, aumentando o flagelo da fome. Neste contexto surgem candidatos que se utilizam da miséria dos pobres para efetuarem a sua promoção política pessoal. Estes candidatos não merecem ser eleitos. Diante da fome, as campanhas assistenciais são necessárias, contudo, a fome precisa ser enfrentada com propostas concretas de políticas públicas que diminuam as desigualdades sociais, gerando emprego e renda.
4 – A chaga da corrupção – A corrupção é uma praga que corrói o tecido político e social do país, sendo uma das causas da miséria que se abate sobre o povo. Nos últimos anos, as eleições foram pautadas pelo enfrentamento à corrupção, mas, apesar de alguns poucos avanços, há muito o que se fazer. Pouco tem sido dito ou feito sobre o enfrentamento à corrupção no país, como se ela estivesse acabada. Muitos, que em um passado recente faziam discurso de enfrentamento à corrupção, estão hoje emudecidos, fazendo vistas grossas, como se a corrupção estivesse acabada no país. Mas ela está aí, com práticas cada vez mais explícitas e hediondas, inclusive se manifestando ao longo do processo eleitoral. Há muitos candidatos que sequer sabem as atribuições de vereadores e de prefeitos. Para se enfrentar a corrupção não podemos alimentar a troca de favores, votar atendendo a vontade de quem ocupa lugares de comando ou dos que se apresentam como pessoas acima do bem e do mal. O critério fundamental para se combater a corrupção é efetuar um voto ético, que defende a justiça social e o bem comum.
5 – A missão do leigo (a) e da hierarquia – A CNBB enfatiza que “o político católico atua em torno dos valores humanos recebidos da tradição cristã. Não é a Igrejainstituição que atua politicamente, mas homens e mulheres com compromissos cristãos” (Cartilha de Orientação Política 2020). Por isso, a Igreja proíbe a candidatura ou a participação político-partidária dos padres, reservando esta missão para os leigos (as), de maneira que os padres devem evitar apresentar-se como candidatos, apoiar ou participar de atividades de candidatos (as) ou partidos durante o período eleitoral. Da mesma forma, orienta os leigos (as) que disputarão as eleições a se afastarem das atividades litúrgicas e pastorais durante o período eleitoral, devendo retornar às mesmas após as eleições, qualquer que tenha sido o resultado.
Finalmente, convocamos todos os católicos a refletirem e assumirem o voto consciente nas próximas eleições para que, iluminados pela Palavra de Deus, contribuamos com a construção de municípios mais humanos e mais justos. Que a graça e a sabedoria divina nos guiem e o amor de Cristo, pelos mais pobres, nos inspire na escolha dos candidatos (as). Que cada um dos cristãos e cristãs assumam, com a coragem de discípulos missionários e cidadãos, o direito de votar de forma consciente, comprometidos com a construção de uma sociedade justa e democrática, segundo os valores do Evangelho. Que a Virgem da Penha nos acompanhe e nos auxilie nesta importante missão.
De Ordem
Dom Frei Dario Campos, ofm
Arcebispo Metropolitano da Arquidiocese de Vitória do Espírito Santo

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